Por Multi em 21/10/2026 | Categoria: Sustentabilidade e Experiência Bacuri
Três Anos de Bacuri: A Parceria que Transformou um Sonho em Alta Gastronomia
Aniversário de restaurante é sempre motivo de celebração. Mas quando se trata de um negócio nascido de uma amizade improvável, construído em uma cidade que virou referência mundial de ecoturismo e dedicado a um propósito que poucas cozinhas se atrevem a abraçar, a data pede algo mais do que velas no bolo. Pede que se conte a história.
O Bacuri Cozinha Regional completa três anos. E, para marcar a ocasião, os sócios Sylvio Trujillo e Carlos Eduardo se sentaram diante das câmeras para relembrar o caminho. O que saiu dessas conversas é um retrato honesto de uma parceria que funcionou e de um projeto que, como define Carlos, não é um sonho realizado, porque está acontecendo.
Toda boa história tem um começo banal que, olhando de perto, revela-se decisivo. A origem do Bacuri começou na pandemia, quando Sylvio, chef com trajetória internacional, abriu uma empresa de consultoria de alimentação e bebida e começou a prestar serviço para atrativos de Bonito. Entre eles, a Nascente Azul.
Foi ali que os caminhos se cruzaram. Carlos conta que Sylvio era um consultor de A&B com quem a equipe do atrativo veio trabalhar, e que dali nasceu, despretensiosamente, uma relação comercial. Só que a relação comercial virou outra coisa rápido.
Sylvio resume: "A gente ficou muito amigo, cara. Sabe quando parece que as pessoas se conhecem há anos?". A química foi imediata, daquelas que não se planejam nem se explicam. Em pouco tempo, consultoria virou convivência e convivência virou cumplicidade.
Foi nesse convívio que Carlos presenciou um momento que guardou na memória. "Teve um dia em que eu vi o olho do Sylvio brilhar mais do que nunca", relata. Ele perguntou qual era o maior sonho do chef. A resposta foi direta: ter um restaurante.
E veio a pergunta que mudou tudo: "Vamos abrir um?"
A origem do Bacuri cabe nessa frase. Carlos lembra que o sonho nasceu da simplicidade, de uma relação que começou despretensiosamente. Sylvio, então, fez o que os chefs de verdade fazem quando um projeto começa a tomar forma: colocou a mão na massa. Cada visita, ele preparava três ou quatro pratos para os dois experimentarem. "Esse vai, esse não vai", elegia. Foi assim, garfada por garfada, que o cardápio nasceu.
E há um detalhe poético que os sócios fazem questão de lembrar. Naquela fase de gestação, os dois liam e releiam o poeta sul-mato-grossense Manoel de Barros: "Que Deus nos conceda uma casa com janelas azuis e árvores no quintal". Não é coincidência que um restaurante nascido em Bonito, cercado pela natureza que inspirou o poeta, tenha carregado essa frase como senha desde o início.
Todo projeto precisa de combustível. O do Bacuri tem nome: um incômodo. Sylvio explica que sempre o incomodou o fato de a gastronomia sul-mato-grossense não ter expressão nacional. "Você não tinha um prato típico fora do Mato Grosso do Sul que fosse identificado", conta.
O tempo vem dando razão ao diagnóstico e provando que a mudança é possível. Sylvio cita um exemplo recente: o cupim, que hoje é moda, que já não falta em quase nenhum restaurante do estado, mas que em outro momento não era visto dessa forma. "Ou seja: já é regional", celebra.
E a ambição não termina aí. "O nosso maior intuito é fazer a gastronomia regional se tornar alta gastronomia", define Sylvio. "É valorizar mesmo, é colocar a gastronomia sul-mato-grossense na primeira prateleira."
Carlos observa esse processo de fora para dentro, com consciência do papel que a casa nele ocupa: "A gente sabe, efetivamente, que participa desse processo. Esse sempre foi o intuito desse resgate que a gente buscou. Eu vejo exemplos em cidades muito maiores, como Campo Grande, da regionalidade ser tratada com muito mais respeito do que era há cinco anos. E é essa a nossa missão."
Se há um segredo por trás dos três anos, ele está na forma como os dois se complementam. E a descrição deles é honesta ao extremo.
Sylvio fala do sócio com o respeito de quem reconhece autoridade: Carlos tem um parâmetro de qualidade muito superior à grande maioria das pessoas. "Então, se ele fala 'está bom', está bom." Mas o valor dele não está apenas no paladar apurado. Carlos é um comensal dos melhores restaurantes do mundo, alguém que atravessa o planeta provando cozinhas e trazendo esse repertório de volta para a mesa do Bacuri.
"Ele também nos alimenta muito dos contrapontos", explica Sylvio. "Desse senso crítico sincero, para alcançar a qualidade." É uma parceria sem elogios automáticos e sem zona de conforto, onde a meta comum cobra de cada um o melhor que ele tem.
Carlos, do outro lado, descreve a habilidade do chef: Sylvio consegue trazer uma visão nova para o prato, sem ficar naquela zona de conforto, acrescentando o toque pessoal. "Eu sinto que você percebe o trabalho, mas ele não descontextualiza a identidade do prato. Isso é fantástico." A síntese do método cabe em uma frase dos sócios: ousar, mas tendo certeza de que há qualidade no produto.
Se a cozinha é o coração do projeto, o ambiente é o abraço que o envolve. Carlos lembra que a ideia, desde sempre, foi criar um espaço acolhedor, em que a pessoa se sinta imersa na cultura sul-mato-grossense. "A gastronomia é o canal", resume. E o cenário escolhido remete a uma fazenda antiga, com a hospitalidade e a simplicidade do interior.
O resultado mais precioso, porém, não aparece na decoração. Aparece nas reações. "Ver pessoas claramente emocionadas por ver pratos que simbolizaram a vida delas é muito gratificante", conta Carlos. "A gente conseguir transmitir essa emoção para a pessoa através da mesa, através da comida."
É nessa frase que o propósito dos três anos encontra seu sentido mais profundo. Um restaurante que emociona não vendendo apenas comida, mas memória, resgate e identidade.
Os números contam o tamanho da caminhada. "A gente começou com dezoito funcionários", lembra Sylvio. "Hoje somos cinquenta e cinco, cara."
Mas, para ele, o dado mais bonito não é a escala. É o que a empresa se tornou. "Graças a Deus, a gente fez uma empresa que é um solo fértil de pessoas que têm dado muito fruto. A gente não conseguiria nada sem elas. Nada, nada, nada."
Três anos depois, o Bacuri é uma equipe que multiplica, ensina e cresce junta. Em uma cidade cuja economia se apoia no atendimento de qualidade ao visitante, formar gente é mais do que gestão. É contribuir com o destino.
No fim das conversas, a síntese do aniversário vem de Carlos: "Esse é um motivo de orgulho. É uma sensação que eu não digo de sonho realizado, porque ele está acontecendo."
A frase guarda a essência dos três anos. O Bacuri não é um ponto de chegada, é um movimento em curso. A gastronomia sul-mato-grossense na primeira prateleira ainda é uma missão diária, servida em cada prato que sai da cozinha, em cada cliente emocionado, em cada avaliação que reconhece o valor da comida regional.
Se você está planejando visitar Bonito, ou vai voltar à cidade, vale reservar uma noite para conhecer o resultado dessa parceria. O Bacuri Cozinha Regional fica na Rua 24 de Fevereiro, 2286, no centro de Bonito, e recebe para jantar das 18h às 23h.
Três anos, uma amizade, cinquenta e cinco pessoas e um propósito: provar que a comida sul-mato-grossense merece os melhores lugares à mesa do Brasil.