Por Bacuri Cozinha Regional | Notícias em 07/08/2026 | Categoria: Sustentabilidade e Experiência Bacuri
Conheça o início da trajetória do Chef Sylvio Trujillo. De São Paulo à Europa, descubra como a paixão por restaurantes nasceu e mudou sua vida para sempre.
Há histórias que começam com um talento precoce, com alguém que sempre soube o que queria. A história do Chef Sylvio Trujillo não é assim. E talvez seja exatamente por isso que ela seja tão fascinante.
Lá pelos idos de 1998, Sylvio começou a trabalhar em um hotel chamado Golden Tulip Paulista Plaza, na região central de São Paulo, ali perto da Avenida Paulista. Era um flat com um restaurante que, na época, era considerado incrível. E foi ali, sem planejar, sem buscar, que algo aconteceu.
Não foi amor pela cozinha. Não ainda. Foi amor por aquele universo inteiro que gira em torno de um restaurante. Nas palavras do próprio Sylvio, foi paixão por entender como aquela engrenagem funcionava: a equipe, a cozinha, o salão, aquele calor, aquela loucura. Aquilo o fascinou de cara.
Foi ali que ele olhou para aquele ambiente e disse para si mesmo: é isso que eu quero pra mim.
Existe algo difícil de explicar para quem nunca trabalhou em um restaurante. Aquela energia, aquele ritmo, a forma como tudo precisa funcionar em conjunto, como cada pessoa depende da outra, como o caos se transforma em harmonia quando o serviço flui. Sylvio não se apaixonou por um prato específico ou por uma técnica. Ele se apaixonou pela máquina.
Um restaurante é, de muitas formas, um organismo vivo. O salão conversa com a cozinha. A cozinha conversa com o salão. O calor dos fogões, a pressão do horário de pico, o som dos pratos, o cheiro dos temperos. Tudo isso cria uma atmosfera que ou te consome ou te conquista. Para Sylvio, foi conquista.
Mas entender que queria aquilo para si era apenas o primeiro passo. O próximo era aprender. E Sylvio sabia que aprender significava estar onde as coisas aconteciam de verdade.
Saiu do Golden Tulip e foi trabalhar no Gran Meliá Ouro Trade Center, um dos maiores complexos hoteleiros de São Paulo. Sede do World Trade Center, era um lugar onde a escala, a estrutura e a complexidade eram de outro nível.
Se no primeiro hotel ele descobriu a paixão, no Gran Meliá ele começou a entender a dimensão do que aquela profissão podia oferecer. Trabalhar em um complexo daquele porte significa lidar com volume, com padrão, com a exigência de manter a qualidade mesmo quando a escala desafia. É uma escola que ensina disciplina, organização e a capacidade de pensar grande.
Sylvio estava construindo uma base sólida. Mas algo dentro dele pedia mais. Pedia mundo. Pedia distância. Pedia se jogar no desconhecido.
O que veio depois é o tipo de experiência que muda uma pessoa para sempre. Sylvio pegou uma mochila e foi para a Europa. Não foi como turista. Não foi em pacote. Foi com a intenção de trabalhar, de aprender, de se colocar no lugar mais desconfortável possível.
E trabalhou em vários restaurantes. Às vezes como garçom, voltando ao papel que conhecia. Às vezes como cozinheiro, arriscando o terreno que ainda estava aprendendo. Às vezes como ajudante de cozinha, na base do faça o que for preciso. Outras vezes como lavador de pratos, com as mãos na água, limpando o que outros sujaram. E também como separador de lixo, uma função que poucos citam com orgulho, mas que Sylvio não hesita em lembrar.
Não havia vergonha nenhuma nisso. Havia consciência de que cada posição ensina algo. Que lavar pratos é entender o fluxo da cozinha. Que separar lixo é entender o que sobra, o que se aproveita, o que se desperdiça. Que ser garçom é entender o cliente. Que ser cozinheiro é entender o ingrediente.
A Europa deu a Sylvio algo que nenhuma escola formal poderia dar: a vivência real, sem filtros, da gastronomia em suas diferentes camadas. Dos restaurantes pequenos aos grandes. Das funções mais humildes às mais técnicas. Da cozinha ao salão. Do lixo ao prato.
Da Europa, Sylvio embarcou em outra experiência transformadora: um navio de cruzeiro que fazia rotas pelo Mar Mediterrâneo. E ali, dentro daquele navio, ele fez praticamente tudo.
Trabalhar em um cruzeiro marítimo é uma realidade à parte. Você está isolado no meio do mar, convivendo com pessoas de diferentes nacionalidades, servindo centenas ou milhares de refeições por dia, em um ambiente onde o ritmo não para. Não há dia de folga como em terra firme. Não há para onde ir. O navio é o trabalho e o trabalho é o navio.
Sylvio passou por ali dentro de tudo. Inclusive na separação de lixo do navio, função que ele menciona com a mesma naturalidade com que fala de cozinhar. Porque para ele, cada função era uma forma de entender o todo. Cada posição era um ângulo diferente de enxergar a mesma máquina que o havia fascinado no Golden Tulip, anos antes.
Ficou lá bastante, bastante tempo. Tempo suficiente para absorver culturas, apreciar novos pratos, agregar novos valores ao que já carregava consigo. O Mediterrâneo não foi apenas um cenário. Foi uma escola de vida.
Depois de toda essa jornada, a Europa, o navio, as cozinhas, os pratos, o lixo, as mesas, Sylvio voltou para o Brasil. Voltou com uma bagagem que não cabia em nenhuma mala. Voltou com olhos diferentes, com mãos treinadas, com uma compreensão profunda do que é a gastronomia em sua essência.
O jovem que havia se encantado pela engrenagem de um restaurante em São Paulo agora era um profissional com experiência internacional, com visão de mundo, com a técnica afiada e a mente aberta. Tinha passado por hotéis de luxo, por cozinhas europeias, por navios que cruzavam o Mediterrâneo. Tinha lavado pratos e coordenado serviços. Tinha separado lixo e criado pratos.
Mas a história de Sylvio Trujillo estava apenas começando. O que viria a seguir ninguém poderia prever. Nem ele próprio. Porque às vezes a vida guarda para a gente um capítulo que ainda não foi escrito. E esse capítulo está por vir.
Essa história continua.