Por Bacuri Cozinha Regional | Notícias em 29/07/2026 | Categoria: Cultura Regional
O Bacuri Cozinha Regional não nasceu apenas para servir refeições. Nasceu para homenagear a gastronomia sul-mato-grossense e, mais do que isso, para oferecer ao visitante uma imersão autêntica na cultura do Mato Grosso do Sul. Quando você atravessa a porta do restaurante, não está apenas entrando em um espaço gastronômico. Está entrando em um lugar que respira o Pantanal, que conta histórias através do ambiente e que convida cada cliente a entender um pouco mais sobre o que faz dessa região um lugar tão singular.
Essa proposta se expressa de muitas formas. Na cozinha, através de ingredientes regionais e técnicas ancestrais. No atendimento, através da hospitalidade sul-mato-grossense. E no ambiente, através de elementos culturais que transformam o espaço em uma verdadeira galeria viva da identidade pantaneira.
Em um canto especial do Bacuri, uma obra de arte silencia o ambiente e prende o olhar de quem chega. Trata-se de uma Comitiva Pantaneira criada pela artista plástica Buga Peralta, nome artístico de Celair Ramos, sul-mato-grossense, indígena kadiwéu, nascida em Bonito.
Buga é uma artista cujo trabalho atravessa fronteiras. Suas esculturas em argila, resina e cerâmica já foram expostas em Nova York, participaram da Jaguar Parade em São Paulo e inclusive integraram o cenário da novela Pantanal, da Rede Globo. Mas foi nas memórias de sua infância que ela encontrou a inspiração para a comitiva que hoje habita a parede do Bacuri.
Quando criança, Buga via as boiadas passarem pelos lugares onde morava. A imagem dos bois, dos cavalos e dos peões ficou marcada em sua mente. Décadas depois, essas lembranças se transformaram em arte. Cada figura esculpida carrega a memória viva do homem pantaneiro, do seu cotidiano, da sua lida. E agora, essa memória está dentro do Bacuri, conversando com cada pessoa que senta à mesa.
Para entender a força dessa obra, é preciso entender o que ela representa. A comitiva pantaneira é uma das tradições mais emblemáticas do Pantanal. É a viagem em que peões conduzem o gado de um lugar a outro, geralmente das áreas baixas e alagadas para as partes mais altas durante o período de cheia.
Não é apenas uma atividade econômica. É um ritual que define a identidade do homem pantaneiro. Cada comitiva é uma comunidade móvel, com hierarquia, funções definidas e uma solidariedade forjada pela duração da jornada, pelo sol, pela poeira e pelos desafios do território.
Na comitiva, cada pessoa tem uma função específica e essencial. Nada é aleatório. Cada posição tem um nome, uma responsabilidade e um saber transmitido de geração em geração.
O Ponteiro: É quem vai à frente da boiada, guiando o caminho e definindo o ritmo da marcha. Toca o berrante nos momentos certos, para atrair ou acalmar o gado. O ponteiro precisa ter um conhecimento profundo do terreno e da rota, além de uma habilidade rara para controlar os animais. É a posição de maior responsabilidade na comitiva.
O Meieiro ou Rebatedor: Caminha no meio da boiada, mantendo os animais juntos e direcionando-os corretamente. É o responsável por evitar que o gado se disperse, garantindo que o rebanho se mova como um corpo só. É uma função que exige resistência física e atenção constante.
Os Fieiros: Ficam posicionados nas laterais da boiada, impedindo que os animais se afastem do grupo. São os guardiões das bordas, sempre atentos a qualquer boi que tente sair do caminho. Trabalham em dupla, um de cada lado, cobrindo os flancos da comitiva.
O Capitão: É o líder da comitiva, o homem de confiança do patrão. Controla todas as atividades, toma as decisões e responde pela boiada. É quem coordena os peões, define paradas, escolhe rotas e resolve os imprevistos que surgem no caminho. O capitão é, ao mesmo tempo, estrategista e autoridade.
O Cozinheiro de Comitiva: Em comitivas maiores, há quem cuide da alimentação de toda a equipe durante a jornada. É uma função fundamental, porque a comitiva dura dias, às vezes semanas, e manter os peões alimentados é essencial para a continuidade da lida.
Cada uma dessas funções está representada na obra de Buga Peralta. Cada figura esculpida carrega não apenas a forma, mas o sentido de uma cultura que se sustenta no trabalho coletivo, no respeito ao território e na transmissão de conhecimento entre gerações.
O Bacuri escolheu trazer essa obra para dentro do restaurante por uma razão muito clara: acreditamos que a gastronomia é apenas uma das portas de entrada para a cultura de um lugar. O ambiente é outra.
Quando você senta à mesa no Bacuri e observa a comitiva na parede, está diante de mais do que uma decoração. Está diante de um pedaço da alma pantaneira. As figuras esculpidas por Buga Peralta contam uma história que complementa a história que é servida no prato. Uma fala do homem que conduz o gado. A outra fala dos ingredientes que vêm da terra, dos rios e das tradições que esse mesmo homem ajudou a construir.
Essa ambientação não é acidental. Faz parte de uma escolha consciente de transformar o restaurante em um espaço de imersão. O visitante que chega ao Bacuri não está apenas buscando uma boa refeição. Está, mesmo que inconscientemente, buscando entender onde está. E o ambiente, com suas referências culturais, ajuda a responder essa pergunta.
A experiência no Bacuri é dupla. De um lado, o paladar. A gastronomia regional, com seus peixes do Pantanal, suas carnes preparadas com técnica e paciência, sua mandioca em diferentes formas, seus acompanhamentos que carregam influências indígenas, pantaneiras e de fronteira. Tudo isso conta a história do Mato Grosso do Sul através do sabor.
Do outro lado, o ambiente. A obra de Buga Peralta, os elementos decorativos que remetem à cultura local, o acolhimento que é marca registrada do sul-mato-grossense. Tudo isso conta a mesma história, mas por outro caminho.
Quando essas duas dimensões se encontram, algo especial acontece. O visitante não apenas come. Não apenas observa. Ele vivencia. Entende que a comida que está no prato tem uma origem, que o homem que conduz a comitiva na parede é o mesmo que ajudou a construir a identidade de um território. E que aquela refeição é, também, um ato de reconhecimento cultural.
Da próxima vez que estiver em Bonito, reserve um momento para observar a comitiva que habita o Bacuri. Olhe para cada figura. Tente identificar o ponteiro, o meieiro, os fieiros, o capitão. Pense na jornada que cada um deles representa. E então, quando o prato chegar à mesa, lembre-se de que aquele sabor também é parte dessa mesma história.
O Bacuri Cozinha Regional existe para isso: para que cada visita seja um encontro entre arte, cultura e gastronomia. Para que você saia daqui não apenas satisfeito, mas com a sensação de que aprendeu algo sobre o Mato Grosso do Sul. E, principalmente, com o desejo de voltar.